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Truca-truca (Natália Correia)

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Truca-Truca

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o orgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

 

O poema Truca-truca, de Natália Correia, foi recitado nesta Sexta-feira pela actriz São José Lapa durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher, após a sessão plenária da Assembleia da República.

A actriz foi convidada a ler alguns poemas de Natália Correia no âmbito dos 20 anos da morte da poetisa e deputada, que será homenageada com a exposição, no museu da Assembleia, de um busto seu.

O poema Truca-truca foi escrito em 1982, durante o primeiro debate parlamentar sobre a interrupção voluntária da gravidez. A sessão plenária já ia a meio quando João Morgado, deputado do CDS, afirmou que “o acto sexual é para fazer filhos”.

Natália Correia, que lutava pela despenalização do aborto, inspirada pelas declarações do deputado, escreveu o poema e pediu a palavra. O Truca-truca provocou gargalhadas em todas as bancadas parlamentares e a sessão teve de ser interrompida.

 

Natália Correia nasceu cá, em São Miguel!

Foi uma intelectual, poeta (a própria recusava ser classificada como poetisa por entender que a poesia era assexuada) e activista social açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC).
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.

Podem saber mais aqui (Wikipedia).

 

Fonte:

Público

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Written by paranoiasnfm

9 de Março de 2013 às 11:28

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